Entrevista

. Participação das mulheres na política na Guiné-Bissau: “Há melhorias não só em termos quantitativos como qualificativos”

Adama BaldéAdama Baldé reconhece em si uma veia ativista que não a deixa baixar os braços. Nasceu na Guiné Bissau há 21 anos, é estudante do curso de Ciências Políticas e Relações Internacionais, vice-coordenadora da Rede de Crianças e Jovens Jornalistas (RCJJ) e vice-presidente da Rede Nacional das Associações Juvenis (RENAJ). É a primeira mulher eleita na lista para dirigir a Rede. Trabalhar em prol dos direitos das jovens raparigas e de uma juventude guineense autónoma e empoderada são algumas das suas bandeiras.


Quando surge a sua ligação ao movimento juvenil e associativo na Guiné-Bissau?

A minha ligação à sociedade civil surgiu desde muito cedo, ainda em criança, mas considero-me mais ativa no processo a partir de 2008/2009 quando integrei a organização da minha comunidade – a Associação para o Desenvolvimento Juvenil do Bairro Militar onde exerci a função de porta-voz. Mais tarde, em 2012, integrei a Rede de Crianças e Jovens Jornalistas (onde actualmente sou vice-coordenadora). Já em 2014, comecei a trabalhar como ativista pelos direitos das jovens raparigas quando entrei no Fórum de Intervenção Social das Jovens Raparigas como porta –voz e hoje como presidente do Conselho fiscal. Sempre tive espírito de ser activista lutando por causas sociais.

Quais são na sua opinião os maiores desafios que se colocam em matéria de políticas de juventude à Guiné-Bissau?

Um dos maiores desafios da RENAJ é o de tornar jovens autónomos e empoderados tanto em termos económicos como a nível social e cultural. Mas também há que se trabalhar para uma juventude autodeterminada e que pensa com a própria cabeça e anda com os seus próprios pés. Jovens com princípios e valores preservados.

Foi eleita recentemente vice-presidente da RENAJ. É a primeira vez que uma rapariga assume estas funções na Guiné-Bissau. Quais são as funções da Vice-Presidente?

A RENAJ já teve uma mulher como vice-presidente mas não foi eleita na lista. Foi nomeada diretamente em 2000. O que quer dizer que sou a primeira eleita na lista.

As funções da vice-presidente, por inerência, são todas as competências estatutárias do presidente. Desde a substituição direta e automática do presidente até às decisões finais que tenham que ser tomadas.

O que espera realizar durante o seu mandato?

Espero durante estes 3 anos poder alavancar os anseios que suscitaram a criação da RENAJ, levar avante grandes projetos assumidos na lista por um novo compromisso em prol da juventude guineense mas também poder influenciar positivamente, acompanhar as dinâmicas sociais e desafios globais sobretudo os ODS e a Agenda 2063 de África.

Quantas associações fazem parte da RENAJ e quantas têm raparigas na Presidência e Vice-Presidência? 

São 64 as organizações que fazem parte da RENAJ e apenas 6 têm mulheres como presidentes e 5 como vice-presidentes.

Como vê a participação das raparigas e mulheres na vida política e nas lideranças da Guiné-Bissau?

Quanto à participação das mulheres na política e sobretudo nas lideranças hoje em dia têm muito progresso não só do ponto de vista de intervenção. Levam avante as suas ideias apesar de depararem com grandes constrangimentos provocados por vários factores que acabam por influenciar. Prova disso é o surgimento de organizações feministas no nosso país. Hoje em dia já se vê a participação das mulheres na política não só em termos quantitativos mas também qualificativos.

Além da esfera política, também a nível das estruturas juvenis há progressos em várias dimensões. É notável uma aposta nas lideranças das jovens raparigas nas funções de destaque. Além de estarem no topo, são muitos influentes.

Quais as maiores preocupações a que pretende responder a RENAJ em matéria de direitos de rapazes e raparigas na Guiné-Bissau e na região?

No que diz respeito à matéria de género, a participação das meninas e rapazes tem preocupado bastante a RENAJ uma vez que defendemos o equilíbrio social a todos os níveis e isso passa necessariamente por dar as mesmas oportunidades a rapazes e raparigas. Preparando-os para darem respostas a desafios globais ao mesmo nível e sobretudo desenvolverem capacidades e qualidades de forma integral e equilibrado com base nos seus conhecimentos, competências, valores e atitudes. Nesta senda, a RENAJ já tem em vista um projeto para mobilizar apoios financeiros para apoiar meninas das zonas rurais que pretendam estudar nas universidades em Bissau mas que não têm condições económicas e financeiras para autossustentarem os estudos.

A discriminação e a Violência com base no Género são obstáculos ao desenvolvimento em todos os países. A educação das meninas, os casamentos infantis, precoces e forçados ou combinados pelas famílias, a mutilação genital feminina e problemas de saúde sexual e reprodutiva são obstáculos reais ao exercício dos direitos humanos. Como a RENAJ e a sua Presidência atuam ou pretendem atuar nestes domínios?

A RENAJ tem-se focado nos problemas que afetam a classe juvenil e adolescente sobretudo as meninas. Temos apoiado as organizações de base da Rede com capacitação sobre a importância da eliminação de todas as formas de descriminação, violência baseada no género, casamentos precoces e forçado, mutilação genital feminina, saúde sexual e reprodutiva, entre outras temáticas transversais. Alertamos para a necessidade de inclusão de forma séria das meninas e as vantagens de deixar as meninas livres. Ainda a RENAJ, na sua Escola Nacional de Voluntariado, tem oficinas que especificamente tratam de questões ligadas à participação das jovens raparigas - sobretudo nas lideranças – e o próprio tema do empoderamento económico, cultural e social das jovens raparigas. 

Paralelamente a rede vai continuando a exercer o seu papel de advocacy em prol das jovens raparigas guineense tanto das zonas urbanas como das zonas rurais.

Em que matérias prioritárias de atuação da RENAJ e das suas associadas?

As principais áreas de atuação da RENAJ são: Direitos humanos e equidade de gênero, empresariado juvenil, associativismo e voluntariado, gestão organizacional, saneamento básico e proteção ambiental.

Que semelhanças e pontos de contactos há entre a RENAJ e as redes congéneres de outros países?

A RENAJ tem sido uma organização com aceitação a nível nacional e internacional. A nossa relação com as organizações congêneres de outros países é muito boa. Temos tido bom relacionamento com a Federação Nacional de Associações Juvenis de Portugal (FNAJ), União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Cooperativa INDUCAR, Instituto Marquês Vale Flor, OXFAM AMÉRICA, Faculdade de Maciço de Baturité, WANNEP, ONG ISSO, entre outros.

Como vê o futuro das meninas e raparigas na Guiné-Bissau?

Vejo o futuro das meninas e raparigas com uma luz de esperança apesar de ainda haver alguns desequilíbrios especialmente nas zonas rurais onde as desigualdades são maiores muito por influência, por exemplo, de fatores culturais. De qualquer forma se olharmos para trás os jovens rapazes tinham mais oportunidades do que as raparigas. Hoje vê-se, apesar de tudo, uma revolução quanto à participação das raparigas nas diversas esferas e futuramente será muito benéfico para a sociedade guineense porque vai permitir jovens raparigas e rapazes terem um nível de equilíbrio muito aceitável tanto na vida política, económicas e cultural do país.

Na conferência de Julho de 2018 na ANP a Adama foi uma das vozes pelo Fim da MGF e na defesa do empoderamento das meninas e raparigas. O que tem sido feito e quais os resultados que entende ser importante partilhar com a diáspora guineense em Portugal?

Adama Baldé

Quanto a ganhos vejo que as organizações da sociedade civil, particularmente as organizações que trabalham a componente de género, têm-se afirmado em termos da vigilância e abandono da prática de MGF. Saliento o surgimento de ativistas feministas para o fim da prática de MGF, persistência nas sensibilizações comunitárias e promoção de sessões de djumbai.

Portugal é um país que naturalmente não pratica a MGF mas no entanto tem uma comunidade imigrante que sujeita a este flagelo por isso nós gostaríamos de apelar a todos os residentes guineenses em Portugal, e em todas partes do mundo, para abandonarem a prática tão nociva e que pode trazer sérias consequências como hemorragias internas e externas, infertilidade, doenças como VIH/SIDA, redução de prazer sexual, fistula obstétrica, entre outras.

 

Edição de Cláudia Marques, Jornalista