Entrevista

. Wamina, uma marca social moçambicana pioneira na capacitação sobre saúde e direitos sexuais

foto filipa carreira wamina 150x180Filipa Carreira*

P&D: Como começa o seu contacto em Moçambique e que trabalho desenvolve?

FC: Cheguei a Moçambique no dia que completei 2 meses de idade.

Após a o meu Mestrado, tive a sorte de estagiar em várias ONG na Holanda, EUA, Maldivas e quando chegou a hora de entrar no mercado de trabalho, voltei a Moçambique, em 2014. O meu primeiro emprego foi com a Green Light (Consultoria Ambiental), como investigadora e designer de projetos de desenvolvimento. Com o fundador, Boris Atanassov, pioneiro em energia renovável em Moçambique que é hoje um reconhecido ambientalista e empresário, aprendi técnicas de avaliação rural, tudo o que sei sobre energia solar, energia doméstica, produção sustentável de carvão e saneamento. 

Um ano depois, decidi aplicar todas essas competências às questões sociais. Em 2015, sem qualquer financiamento, em Maputo, realizei a primeira Baseline sobre Higiene Menstrual. A amostra incluiu 1500 rapazes, raparigas, homens e mulheres. As informações recolhidas incluíam: dados demográficos, conhecimento sobre gestão da higiene menstrual, implicações sociais e tabus em torno da menstruação. Os resultados da pesquisa mostraram claramente a lacuna no conhecimento sobre menstruação e higiene menstrual e o escasso acesso a protetores menstruais eficazes e acessíveis. E assim nasceu a Wamina, uma marca social moçambicana pioneira na capacitação de raparigas por meio da distribuição de produtos sustentáveis de higiene menstrual e da disseminação de informações baseadas em factos sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos. Desde a sua criação em 2016, a Wamina distribuiu mais de 35.000 pensos menstruais reutilizáveis em todo o país e realizou oficinas de educação sexual para mais de 5 mil jovens, principalmente crianças do ensino primário (meninas e meninos).

P&D: Sabemos que tem um percurso de trabalho em Saúde Sexual e Reprodutiva que envolve também escolas (algumas religiosas) e como zonas rurais em Moçambique. Fale-nos desse trabalho, sobre tudo os desafios que mobilizam a resposta e a busca de soluções para as pessoas.

FC: Quando iniciei a pesquisa sobre higiene menstrual, treinei 14 estudantes como assistentes de campo, 7 rapazes e 7 raparigas, na recolha de dados para o estudo de base (baseline). No dia em que começámos a pesquisa, somente 3 rapazes apareceram, os restantes acreditavam que seria muito difícil atrair pessoas para participarem do estudo, para falar sobre menstruação e higiene menstrual, estavam errados. Concluímos o estudo com mais de 1500 respostas. E desde então não deixo que os pessimistas afetem o meu trabalho. Nos últimos 5 anos, trabalhei com mulheres, meninas e meninos, em 6 províncias do norte, centro e sul de Moçambique, nas áreas rurais e urbanas. Também trabalhei com comunidades cristãs e muçulmanas. Quando nos sentamos com a comunidade (qualquer comunidade), conseguimos sempre transmitir a importância da higiene menstrual e a importância do uso de pensos reutilizáveis. Essa abertura é o resultado do trabalho árduo realizado por organizações comunitárias que são incansáveis na sua busca pelo desenvolvimento e pela melhoria da vida de suas comunidades, frequentemente financiadas por organizações internacionais.  A Wamina integra uma rede de ONGs e ativistas orientados para o desenvolvimento, cujo trabalho é complementar. A nossa metodologia tem 4 etapas: 1 - identificação de potenciais parceiros locais, habitualmente organizações comunitárias e/ ou religiosas. 2 – Processo de verificação das competências do potencial parceiro. 3 – A equipa Wamina dá a workshop de formação sobre saúde sexual e reprodutiva e distribui kits de pensos reutilizáveis. 4 – A Wamina entrega o relatório técnico e financeiro, apresentações e outros produtos de media ao doador ou financiador.

P&D: O seu trabalho em Educação Sexual e Reprodutiva está também ligado à promoção da Higiene Menstrual. Porque esta ligação? Este é um trabalho só para meninas e mulheres?

FC: A abordagem da Wamina à educação sexual é uma metodologia abrangente. Não está claro para nós como se pode ensinar educação sexual sem falar em higiene menstrual. A educação sexual invariavelmente aborda o assunto da menstruação, quando, como e porque acontece. Na nossa perspetiva é óbvio que temos de responder a perguntas sobre o contexto social da menstruação, tabus ao seu redor e como gerir este processo natural com segurança e dignidade.

logo wamina 150x73Nos últimos 3 anos, a Wamina trabalhou com a organização internacional Water and Sanitation for the Urban Poor (WSUP) em Maputo, oferecendo workshops de educação sexual para mais de 5.000 crianças (meninos e meninas) da escola primária da 4ª à 6ª classe. A segmentação de crianças em idade escolar é fundamental para o sucesso das nossas atividades a longo prazo. Em média, as raparigas começam a puberdade entre 10 e 11 anos, marcada pelo surgimento da menarca (1ª menstruação) e os rapazes um ano depois. A escola primária é, portanto, o lugar certo e o momento certo para começar a educação sexual. Além disso, a par dos workshops de capacitação de docentes, capacitamos também as equipas de funcionários/as da escola com conhecimento preciso e como desenvolver uma relação de confiança com alunos e alunas. É comum pais e mães terem dificuldade em abordar questões sensíveis e sexuais com seus filhos e filhas, mesmo admitindo que é parte da sua responsabilidade, pelo que as escolas têm um papel central na educação sexual.

P&D: Algumas das questões de higiene menstrual também estão relacionadas à proteção ambiental. Como é que Wamina faz uma ligação entre sustentabilidade ambiental e responsabilidade social coorporativa ? 

FC: Os produtos menstruais descartáveis produzem grandes quantidades de resíduos que são tóxicos para o meio ambiente. Os tampões são feitos principalmente de algodão, a mais “sedenta” das culturas agrícolas, estão também saturados de pesticidas e inseticidas. Durante a fabricação, estes são expostos a outros produtos químicos nocivos ao meio ambiente, como dioxina, cloro e rayon/raion (tecido de fibra celulósica) enquanto os pensos menstruais descartáveis usam plástico de polietileno. Em média, cada mulher descarta 22 pensos por mês, 264 pensos por ano, contribuindo para uma pegada de carbono equivalente a 5,3 kg de CO2 por ano. As mulheres descartarão 11.000 pensos durante a sua vida, adicionando de 125 a 150 kg de lixo  de produtos menstruais. Os produtos menstruais descartados em aterros contribuem para que produtos químicos e microplásticos sejam absorvidos pelos solos, contribuindo para a sua infertilidade e para a poluição das águas subterrâneas.

O Wamina fornece uma alternativa sensível ao contexto cultural, acessível e ecológica. Pensos reutilizáveis Wamina podem ser usados por 8 horas, embora o nosso conselho seja que estes sejam trocados a cada 4 horas. Os nossos produtos são projetados tendo em mente o contexto e as condições de saneamento nas escolas locais. Os pensos são facilmente lavados e secos e podem durar mais de 5 anos enquanto os descartáveis têm uma vida de 4 a 8 horas. A nossa recomendação é que cada rapariga tenha à sua disposição / que receba, 4 pensos Wamina, cujo custo médio corresponde a 5 Euros.

P&D:  Quem têm sido os principais parceiros da Wamina? Há alguém que tenha sido inspirador neste seu percurso pessoal e profissional? Quem e como ?      

FC: O sucesso da Wamina é o resultado de uma rede variedade de agentes que contribuem para o desenvolvimento de Moçambique e o empoderamento de meninas e mulheres de uma maneira única. As nossas principais parcerias incluem: 

Sharon Mahony, uma incrível mulher australiana que me deu grande apoio pessoal em alguns dos tempos mais difíceis de Wamina. Um dia antes do Natal, a Sharon deu-me um presente incrível, ela conseguiu financiamento da Australian Aid, permitindo que distribuíssemos kits de higiene menstrual para 1000 meninas em 2018.  

A Garda World (GW), uma empresa de segurança privada que opera em Moçambique, cuja equipa é 44% feminina. Stavros Yannakis, o representante da empresa no país, que desde o início do Wamina, acreditou no nosso potencial. A GW doou um kit de higiene menstrual Wamina a todas as funcionárias e doou 1000 USD (cerca de 880 €) em pensos Wamina às vítimas do ciclone Idai em 2019, bem como todo o apoio logístico para garantir que as nossas beneficiárias recebiam os pensos. A GW também apoiou a Wamina com espaço de armazenamento e escritório, quando mais precisámos e doou 10 bicicletas para garantir a mobilidade da nossa equipa.

A Water and Sanitation for the Urban Poor financiou as nossas workshops de educação sexual em Maputo que beneficiaram mais de 5000 crianças do ensino primário e várias formações de professores desde 2017.

Desde que me mudei para Portugal, tive uma enorme sorte em conhecer a sexóloga Vânia Beliz, que no ano passado, sem nunca me ter conhecido, organizou uma angariação de fundos para a distribuição de kits menstruais Wamina para as vítimas do ciclone Idai e que me apresentou generosamente à sua rede de contactos na área da educação sexual. 

logo wamina 150x73O Chris Storey, da Impact Storey, proporcionou à Wamina oportunidades incríveis de networking e ajudou-nos a entrar num novo ecossistema empresarial, além de fornecer apoio logístico. A Wamina não seria o sucesso de hoje se não fosse a dedicação e o trabalho árduo de uma longa lista de voluntariado (não remunerado), incluindo a Beatriz Ferreira e a Yohanna Babilas. Homens e mulheres que acreditam na visão  Wamina e doaram o seu tempo, saber e competências.

Estou muito orgulhosa da nossa comunidade diversificada e multifacetada composta por pessoas incríveis de diferentes idades, género e origens, empresas privadas que entendem o valor intrínseco de atividades impactantes de RSE (responsabilidade social empresarial/corporativa), grandes e pequenas ONG, todos confiaram na Wamina para o fornecimento de conhecimento e produtos de qualidade.

P&D: Segurança Humana e Saúde Sexual e Reprodutiva. Pode explicar exatamente de que falamos e qual a sua experiência e ponto de vista desta matéria. 

FC: Há uma forte correlação entre a desigualdade de género, vulnerabilidade climática e a fragilidade do Estado. O crescimento exponencial da população leva ao rápido esgotamento de recursos. A pressão populacional no planeta exacerba os riscos relacionados ao aquecimento global, desbravamento florestal e diminuição da biodiversidade. Portanto, a capacidade das mulheres de exercer seus direitos, incluindo ao acesso e uso de planeamento familiar, decidindo se e quando engravidar e quantos filhos desejam, está intrinsecamente ligado à saúde do planeta. É do interesse de todos, homens e mulheres de países desenvolvidos e em desenvolvimento, que a educação em saúde e direitos sexuais e o planeamento familiar atinjam todas as comunidades, especialmente aquelas mais vulneráveis ao impacto direto das mudanças climáticas e conflitos.

Em muitas regiões, o aumento da temperatura, as secas prolongadas, as inundações e consecutivos desastres naturais resultantes das mudanças climáticas exacerbam as condições que ameaçam a paz e a segurança. Os conflitos e a insegurança aumentam à medida que os recursos naturais se tornam escassos, levando à violência e deslocamento forçado ou voluntário de comunidades. A desigualdade estrutural de género faz com que as mulheres sejam desproporcionalmente afetadas. Por exemplo: o desbravamento das áreas florestais afeta diretamente as mulheres que precisam caminhar longas distâncias para buscar lenha e água, deixando-as vulneráveis à violência física e sexual. Mulheres e meninas enfrentam encargos económicos desproporcionais; as expectativas de género podem levar mulheres e homens a recorrer à violência quando os meios de subsistência tradicionais falham. Esta pressão económica leva a que, em determinadas regiões do mundo, os homens integrem grupos em  conflito armado ou sejam forçados a migrar, tornando as mulheres as únicas responsáveis pela provisão do lar, deixando-as mais vulneráveis à pobreza e à exploração sexual.

P&D: De que modo o seu trabalho foi afetado pela Covid 19?      

FC: A pandemia do COVID-19 demonstrou o quão as pessoas, os animais e o meio ambiente estão interligados. A pandemia está a testar a nossa capacidade de resistência e adaptação  como pessoas e como empresas. Eu acreditava que 2020 seria um ótimo ano: pesquisa, planeamento e estratégias foram elaboradas para que tudo desse certo. A Wamina participaria numa ronda intensiva de workshops de educação sexual em 18 escolas primárias, beneficiando mais de 2.000 estudantes. Também recebemos patrocínio empresarial para realizar um programa de 6 meses que beneficiaria 1000 meninas por mês; elas receberiam kits menstruais Wamina e workshops de educação sexual! 

Porém, após a COVID -19, os patrocínios foram cancelados, o programa intensivo de 6 meses está em standby e as escolas primárias em Moçambique foram forçadas a fechar devido ao confinamento imposto. Embora tenhamos sofrido um golpe duro, aproveitamos este tempo para reestruturar a Wamina, redesenhar a nossa abordagem e dar à marca um facelift merecido após 5 anos de muito e bom trabalho.

*Quem é Filipa Carreira?

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Depois da licenciatura em Relações Internacionais, na Universidade da Cidade do Cabo - África do Sul concluiu o Mestrado em Segurança Global na Universidade de Sheffield, Reino Unido com a Tese sobre “O tráfico de armas no Afeganistão”. 

Filipa Carreira é Consultora e Empreendedora nas temáticas Saúde Sexual e Reprodutiva, Empreendedorismo Feminino, Direitos Humanos e Ambiente. A viver e trabalhar em Moçambique, o seu percurso profissional inclui ainda os Estados Unidos da América, a Holanda, as Maldivas e o Reino Unido.

Com experiência de trabalho em vários países e contextos, em diferentes organizações da sociedade civil e consultadorias, o seu interesse pelas causas sociais transformadoras, a vontade de fazer mais e inovar estiveram na base da fundação, em Moçambique, da Wamina - um negócio social centrado na formação e educação em Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos com comercialização e distribuição de pensos higiénicos reutilizáveis e trabalho com diferentes segmentos da sociedade civil e tecido empresarial.

Para mais informações sobre a Wamina: https://www.wamina.co.mz/ e https://www.facebook.com/waminamz/ ou contacte: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.