. Camilo Lemos - “Continuamos a registar um grande número de crianças que dão à luz outras crianças. O grande problema está na ligação entre a falta de educação e a pobreza.“

camilo lemos 150x180Camilo Simão José Lemos

Entrevista a Camilo Lemos

Continuamos a registar um grande número de crianças que dão à luz outras crianças. O grande problema está na ligação entre a falta de educação e a pobreza.

P&D Factor - Quais os principais avanços e desafios que em matéria de Direitos Humanos identifica em Angola?

Camilo Simão José Lemos (CL) - Quando passamos fome, para curar uma simples febre temos de fazer uma oração do Pai Nosso ou outra; quando olhamos para o sistema de ensino e sentimos que nos torna mais limitados com medo de arriscar, sem grande possibilidade para pensar fora da caixa porque tudo parece ser um sistema onde somos ensinados a pensar o que se deve e é permitido pensar; quando, olhando para toda riqueza que o país tem e as pessoas morrem ainda de fome, não obstante o fim da guerra; quando vemos que pertencer a uma corrente partidária chega a ser mais importante do que a cidadania que, pelo contrário aqui, significa exclusão social e económica. Limita-nos a mente a possibilidade de apontar avanços em matérias de Direitos Humanos em Angola. Talvez eu não seja a pessoa ideal para responder esta pergunta, pois a dor dos outros e as minhas próprias não me permitem olhar para além da dor. Logo, não vejo avançado digno de júbilo.

P&D Factor - Como está em Angola a resposta em matéria de educação, saúde sexual e reprodutiva e combate a todas as formas de violência com base no género?

CL - Assistimos à fragilidade das organizações, motivada pela falta de recursos para desempenharem as suas tarefas. Fruto disto, não se conseguem ações de continuidade para uma melhor educação das famílias. Vamos tendo algumas iniciativas do Ministério da Ação Social, Família e Promoção da Mulher, que penso serem insuficientes para o País que temos.

O Instituto Nacional da Criança (INAC), desdobra-se quase todos os dias para fazer alguma coisa, mas sozinho também não poder resolver tudo. Por isso, a Fundação Arte e Cultura tem investido na procura de soluções: criámos duas Escolas, de Música e de Arte, onde, usando a arte como meio de sociabilidade e de instrução, vamos educando e transformando a vida das crianças. Nestas escolas acolhemos, diariamente, mais de 350 crianças. Para além das aulas artísticas têm matérias de Educação Sexual, Violência Doméstica e não só. Há outras organizações que também se desdobram para fazer alguma coisa para a educação, a saúde sexual e reprodutiva das crianças, adolescentes e famílias em geral.

P&D Factor - Faltam 9 anos para a conclusão da vigência Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, quais, em sua opinião, as necessidades a que importa reforçar a resposta em matéria de saúde sexual e reprodutiva, educação e desenvolvimento global?

CL - Vamos antes viajar: A primeira pergunta mesmo que fica é? O que é isto de Agenda 2030 para as nossas populações? Para quem ela existe? Acham mesmo que os povos africanos conhecem esta agenda. Se não conhecem, para quem existe? Asseguro-lhe, com todos os riscos, que os angolanos desconhecem. Não estou querer afirmar que ninguém conhece, mas a pergunta continua, quem conhece? Provavelmente, aquele que não tem proximidade, conhece. E se o povo sente que é um zero à esquerda, tudo o que acontece na sua terra não lhe diz nada, tão pouco coisas que são feitas apenas para impressionar a comunidade internacional. Isto é só para chamar o aperitivo desta conversa.

Saúde sexual e reprodutiva - É preciso dizer que, em Angola, tal como em muitos países africanos, a saúde sexual pressupõe a capacidade de reproduzir, ir ao mundo e encher a terra. Ter consciência da necessidade de diminuir a natalidade constitui, frequentemente, um atentado às tradições, porquanto, para as nossas comunidades o maior número de filhos sempre foi sinónimo do poder do homem e de riqueza. Todavia, há por outro lado, um grande trabalho de sensibilização das famílias sobre planeamento familiar, evitar gravidez na adolescência e promover o uso de preservativo. Isto é verdade! Os hospitais estão sempre dispostos a orientar as mulheres para o uso de contraceptivos (realidade das cidades). Há ainda um grande défice no interior do país.

Continuamos a registar um grande número de crianças que dão à luz outras crianças.

O grande problema está na ligação entre a falta de educação e a pobreza.

É necessário potenciar economicamente as organizações que trabalham com as comunidades de modo a que estas desenvolvam planos educacionais e ações sensibilização e mobilização das famílias em matéria de saúde sexual e reprodutiva.

Mas, se até para isso é preciso que tais organizações falem a língua do partido para merecer um olá, a Agenda 2030 não passará do verbo existir conjugado na terceira pessoa do singular, tempo pretérito perfeito.

Educação - O nosso grito prende-se com a qualidade do ensino! Uma educação politizada é o mesmo que uma lavoura entregue à sorte das plantas daninhas. Você precisa dar um forte “Graças a Deus” se colher algo bom.

Temos ainda pessoas a estudar em baixo da copa das árvores! Há escolas, colégios, universidades, muitas universidades, mas na capital do país. No interior encontramos algumas universidades nas capitais das províncias.

Faço parte do grupo de pessoas que defende que o acesso à universidade não se pode resumir a exercício para engordar a estatística e depois reportar à comunidade internacional os números de pessoas a frequentar o ensino superior. É preciso valorizar o ensino, de modo a que quem termine a faculdade seja, mesmo de olhos vendados um cientista, aquele de quem se podem esperar grandes revoluções nas ideias e no fazer. Agora, quando, você precisa de um PhD para concluir que tem mérito, então você não pode falar de sustentabilidade. Neste momento, os países estão numa corrida de maratona para ver quem até 2030 vai atingir as expectativas em termos de número, e por isso até o descartável tem lugar para encher o saco.

Desenvolvimento Global - Honestamente, em Angola, acredito que é mais justo falar de crescimento global. Perdoem-me se estou a ser muito pessimista. A palavra desenvolvimento encerra em si um valor: sustentabilidade. E este implica necessariamente ter e fazer tudo para que as novas gerações nasçam com tudo que lhes pertence por direito, com o futuro não comprometido. Agora tu olhas para o sector da Agricultura e percebes que estamos longe de uma agricultura industrializada e sustentável. Os que fazem a agricultura familiar passam por situação que só não abandonam o que fazem porque não têm outras formas de sobrevivência. Olhas para o sector da Saúde, e percebes que é um “Deus me acuda, tira-me só deste mundo”. Olhas para o sector da Educação e percebes que o próprio país prefere credibilizar quem estudou fora, percebes que a pessoa que diz que construiu esta ou aquela escola para si, nem a sonhar está disposto a colocar nela o seu filho. Tu olhas para o sector das Infraestruturas e vês que as linhas de comunicação, as estradas, estão todas em estado de calamidade. Olhas para o sector da Justiça e percebes que nos tribunais estão a fazer greve por lhes faltarem as mínimas condições para trabalhar. Estou a dizer, mínimas condições para desenvolverem os seus trabalhos. Como falar de desenvolvimento global?

P&D Factor - Em sua opinião, quais os maiores desafios que prevê para Angola enquanto país e membro da comunidade internacional neste tempo de “novo normal”?

CL - Prever o que vamos enfrentar, remete-me à uma leitura centrada em duas alas que formam o mosaico da nossa mãe Angola. A ala dos que têm e vivem, e a ala dos que não têm e por isso sobrevivem. Ambos enfrentam restrições nas suas vidas, fruto do novo normal. Entretanto, as restrições para a primeira ala prendem-se apenas com a liberdade de circulação. Têm o que comer, que vestir e investir, têm para a saúde, para um dia ou uma semana em resorts. E o país vai tendo os seus problemas, menos capacidade financeira, menos economia, menor capacidade para satisfazer o mínimo das necessidades dos que sempre sobreviveram. A (in)justiça social agravou-se, de tal sorte que o pobre vem exercitando outos modos de vida: não ter medo de morrer ao mesmo tempo que teme que os seus morram por causa da fome. Vislumbra-se, entretanto, uma reviravolta. E quando olhamos para a atitude dos políticos, que preferem o poder a ver a alegria no rosto de quem já anda revoltado, preferem gastar dinheiro para comprometer a imagem de quem consideram inimigo político a usar o mesmo dinheiro para acudir o pobre revoltado, acreditem, tudo cheira a causa social, nova guerra civil.

É preciso dizer que, em Angola, a Covid- 19 não trouxe grandes alterações, para os pobres. Desde que nos conhecemos como angolanos, enfrentam os mesmos problemas, desprezo, fome, nudez, morte, sem saúde condigna, entre outras sortes de dores.

Se em Angola a malária mata mais que a Covid 19, então temos mil razões para dizer que há povos que há muito vivem o “novo normal”.

Sinceramente, desculpa que lhe diga que para mim Comunidade Internacional não diz nada, nem para mim, nem para o povo. E prefiro não justificar a minha posição, mas se quiseres uma pista, aqui vai: Um dia estava um senhor da União Europeia a conversar com um Jovem… Este disse: vocês fazem o quê mesmo para o povo angolano? Para mim vocês só ajudam a legitimar os governos ditatoriais em função dos vossos interesses. Seguiram-se outras conversas que me fizeram parar e pensar muito. O que sugiro àquele senhor e à comunidade internacional é que concebam ações que os aproximem mais das populações para que estas passem a conhecê-los melhor.

P&D Factor - Quais os principais desafios que em seu entender se colocam à intervenção das organizações da sociedade civil (OSC) em matéria de direitos das crianças e adolescentes mas também em matéria de Igualdade de Género?

CL - Em meu entender o valor de uma organização da sociedade civil passa por negar-se a si mesma para se dar aos outros. Diferente de se servir dela, usando a fragilidade dos outros para se dar a si mesma. Em sociedades como a nossa, onde a ignorância é a causa do sofrimento do povo, de todo o atraso social, económico há necessidade das organizações serem a ponte para a transformação das famílias que têm a obrigatoriedade de garantir a saúde, educação e alimentação às crianças.

Ações concertadas e conjuntas são chamadas para que aqui e acolá possam ouvir-se as vozes que chamem à razão de qualquer pessoa, entidade coletiva e não só sobre a necessidade de haver oportunidades iguais para homens e mulheres, ambientes favoráveis para o crescimento psico-emocional e social da criança, garantindo-lhe um futuro sem dor.

As OSC debatem-se com falta de financiamento para desenvolverem de forma cabal as suas tarefas. Logo, as empresas, as instituições financeiras não podem ser meros espectadores diante de uma sociedade onde há crianças a comer no lixo, como é a nossa realidade. Dentro das suas responsabilidades sociais, poderiam ser fôlego para as organizações da sociedade civil cujo raio de ação é garantir e assegurar o exercício dos direitos das crianças e adolescentes, mas também em matéria de igualdade de género.

Não se junta a água ao gasóleo, esperando ter uma mistura homogénea. As OSC nunca terão a potência e relevância que se espera se não passarem meros tradutores das estratégias dos políticos.

P&D Factor - Quais os maiores problemas que as populações com quem trabalha enfrentam nesta fase?

CL - Fome, doença, falta de paz espiritual. Não sei se é isto que gostavam de ouvir, mas esta é a verdade. Queria substituí-la por outra, mas não é desta vez que pretendo mentir até a mim mesmo. Aliás, o errado é dizer ‘nesta fase’, porque se tivermos que comparar a isto a um romance, há muito que estas populações foram introdução, desenvolvimento e conclusão. O que as populações passam é apenas uma referência bibliográfica.

P&D Factor - Quem e que assuntos não podemos deixar para trás quando se fala de Saúde, Igualdade, Educação, Direitos Humanos e Desenvolvimento?

CL – É essencial garantir a Justiça Social, promover a Empatia, com Direitos e Deveres partilhados e sendo Bons Samaritanos na vida dos outros.

Não devemos deixar para trás a noção de que um completa o outro, que o cheiro das fezes do vizinho pode invadir a minha casa e prejudicar a minha saúde, e impedir-me de fazer as coisas. Por isso, se ele não souber cavar uma fossa, eu devo ajudá-lo, porque fazendo-o, estarei ajudar a mim mesmo e à minha família.

P&D Factor - Se lhe fosse possível escolher o lema da próxima agenda mundial qual seria?

CL - Não deixe que a ignorância do teu próximo dê frutos, pois com ela pode vender o mundo e todos os que nele habitam.

Quem é Camilo Simão José Lemos?
camilo lemos 220x220Camilo Lemos, natural de Cela, província do Kuanza-Sul, Angola. É o atual responsável do Gabinete de Comunicação da Fundação Arte e Cultura, formador de oradores, palestrante e mestre de cerimónias. Integra a Bolsa Nacional de Formadores de Formadores e é formador de Assessoria de Imprensa e Relações Públicas. É jornalista e foi repórter nos jornais O País, Semanário Económico e revista Exame, todos do Grupo Media Nova. Presidente e fundador da Associação dos Jovens Amigos da Literatura (AJAL), em 2010 criou e liderou o projecto Ano Família e os Aspectos Socioculturais de Cela - integração social de famílias desavindas - em cinco aldeamentos do município, através de ciclo de formações e encontros com autoridades tradicionais, visitas de campo e trabalho com membros das famílias desavindas.
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